Na semana passada, em O que é o Feminismo?, descobrimos onde nasceu a palavra, percorremos parte da sua História e sentámos quatro correntes feministas à mesma mesa. A liberal queria mudar as leis, a radical desconfiava do edifício inteiro, a marxista seguia o dinheiro e a interseccional perguntava quem continuava à porta, quem ficava excluída. Falámos delas, apresentámo-las, mas ficou uma pergunta essencial por fazer: se estas mulheres têm visões tão diferentes, o que faz delas feministas?
Voltemos, então, à mesa. As quatro ainda lá estão porque nenhuma conseguiu convencer as outras a assinar o raio da ata final. Há também uma quinta cadeira, onde acaba de se sentar uma mulher que estava a faltar. Olha para o grupo, pousa a mala e avisa:
“Eu não sou feminista. Gosto muito de homens.”
A liberal pousa o copo com som. A radical olha para o teto em busca de intervenção divina. A marxista revirando os olhos disfarça um suspiro a tempo. A interseccional sorri, porque já ouviu aquela frase mais vezes do que ouviu “não sou racista, mas…”.
“Também nós gostamos de homens”, responde a liberal. “De vários, até. Não necessariamente ao mesmo tempo, calma, rapazes!”
A quinta mulher não se deixa intimidar.
“Só não concordo com os exageros. Acho que devemos receber o mesmo salário pelo mesmo trabalho, poder estudar, votar, ter uma conta bancária, escolher com quem casamos e sair de uma relação violenta.” As quatro olham umas para as outras incrédulas e aliviadas.
“Minha irmã”, diz a radical, “tenho a alegria de informar-te de que acabaste de defender o princípio central do feminismo.”
Passo a explicar porque discutimos tanto a palavra que às vezes nos esquecemos de dizer claramente o que significa.
O feminismo é um conjunto de movimentos, ideias e práticas que procura acabar com a discriminação e a opressão baseadas no sexo e no género. Defende que nascer mulher não deve diminuir os nossos direitos, a nossa liberdade, a nossa segurança, a nossa voz nem as possibilidades da vida que podemos construir. As correntes divergem quanto à origem do problema e à melhor forma de o resolver; partilham, no entanto, a recusa de uma sociedade onde o sexo com que nascemos determina antecipadamente os direitos que temos e a vida que podemos construir.
bell hooks, escritora e pensadora negra norte-americana, deixou-nos uma das definições mais claras: o feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão. Reparaste? O problema tem nome, sexismo. Não se chama “homens”.
“Então, o feminismo não é contra os homens?”, pergunta a quinta mulher.
“Depende do homem, se for um grunho misógino, sim”, murmura a radical.
O feminismo não pretende eliminar os homens, submetê-los ou colocá-los numa reserva natural onde possam ser observados ao fim de semana — e daí, se calhar… Vera!
De volta, o Feminismo procura desmontar ideias, comportamentos e estruturas que atribuem mais valor, autoridade ou liberdade a um sexo do que ao outro. Um homem pode reproduzir sexismo, evidentemente, mas uma mulher também. Todas conhecemos mulheres que reproduzem o sexismo conscientemente e outras que nem sequer percebem que o fazem. Ter útero não vem com certificado automático de consciência social nem com atualizações vitalícias de bom senso… ou senso comum.
Uma mulher pode humilhar outra por não querer ser mãe, educar o filho para achar que as tarefas domésticas são femininas, tratar miseravelmente quem lhe limpa a casa ou atacar a reputação de outra mulher por ter uma vida sexual diferente da sua. Nada disso se torna feminista porque foi feito com unhas pintadas de vermelho. Não, nem pensar.
“Então não temos de apoiar todas as mulheres?”, pergunta a nossa quinta convidada.
A marxista quase se engasga de indignação.
“Temos de defender os direitos de todas. Não somos obrigadas a aplaudir todas as decisões, incompetência ou trafulhices cometidas por uma mulher. Sororidade não é um programa de proteção à parvoíce ou à maldade.”
A quinta mulher ainda não terminou.
“Quando falam de igualdade, querem dizer que mulheres e homens são iguais?”
A liberal endireita-se na cadeira e quase cuspiu uma bola de pelo! Mas, pelo menos, chegámos à sua sobremesa favorita.
Igualdade não significa negar diferenças biológicas óbvias, nem obrigar-nos a ter os mesmos corpos, os mesmos desejos ou a mesma inexplicável paixão por montar móveis sem consultar as instruções e comprar berbequins supersónicos só porque sim. Lembras-te de alguém?
A equidade entra quando percebemos que aplicar a mesma regra a pessoas que partem de condições muito diferentes pode conservar a desigualdade. Uma mulher que acumula o emprego com a maior parte do trabalho doméstico e dos cuidados familiares não vive a mesma realidade profissional de um colega cuja roupa aparece lavada, os filhos aparecem tratados e o jantar se materializa por intervenção do Espírito Santo. Dar-lhes exatamente as mesmas condições no papel não apaga aquilo que acontece em casa.
A interseccional, que até agora escutava, inclina-se sobre a mesa.
“E estamos a falar de que mulher?”, pergunta suave mas astutamente.
A sala cala-se por um instante.
As mulheres não vivem o sexismo da mesma maneira. A raça, a pobreza, a deficiência, a orientação sexual, a idade e o lugar onde nascemos alteram os obstáculos que encontramos. Sojourner Truth já expunha essa falha em 1851, muito antes de alguém inventar a palavra “interseccionalidade”. Enquanto algumas mulheres brancas eram descritas como frágeis e delicadas, Sojourner, uma mulher negra que nascera na escravatura, lembrava que tinha trabalhado, carregado, sofrido e lutado sem receber qualquer proteção reservada à suposta fragilidade feminina.
A mulher negra não pode aparecer no feminismo apenas quando chega o momento de preencher a fotografia da diversidade. A sua experiência obriga-nos a perguntar de que mulher estamos a falar sempre que dizemos “as mulheres”. É precisamente por isso que voltaremos a esta ferida numa próxima crónica, com o tempo e a seriedade que merece.
“Um homem pode ser feminista?”, insiste a quinta mulher.
“Pode apoiar, aprender, intervir e recusar o sexismo. Até o achamos muito sexy”, responde a liberal.
“Também pode lavar a louça sem esperar uma medalha da Presidência da República”, acrescenta a marxista com o seu sarcasmo delicioso.
Algumas correntes preferem chamar-lhes aliados; outras aceitam plenamente que um homem se identifique como feminista. A designação divide opiniões, mas a responsabilidade não: os homens fazem parte da mudança; devem até. Porque, repara, irmã, o sexismo também impõe aos homens papéis estreitos, castiga a vulnerabilidade e confunde masculinidade com domínio e controlo. Muitos rapazes aprendem cedo a esconder o medo, a tristeza e a ternura para não serem humilhados. As consequências são diferentes das que nós enfrentamos, mas uma sociedade menos sexista melhora também a vida e as relações dos homens, logo…
A quinta mulher pensa por momentos e lança a pergunta mais traiçoeira da noite:
“Se o feminismo defende a liberdade de escolha, qualquer escolha feita por uma mulher é feminista?”
As quatro respondem em uníssono:
“Não!”
Até o empregado se assustou e deixou cair a bandeja com estrondo. Na mesa ao lado, um gay com reflexos de comediante nato aproveitou a deixa e sem pestanejar disse: “Ai, caiu-me um brinco!” (História real!)
O direito de escolher é indispensável, mas uma escolha não se torna feminista apenas porque foi feita por uma mulher. Podemos escolher dentro de pressões familiares, necessidades económicas, medos antigos ou normas que aprendemos a considerar naturais. Podemos também escolher coisas que prejudicam outras mulheres. O feminismo defende a nossa capacidade de decidir e, ao mesmo tempo, pergunta quem definiu as opções, quais são as consequências e quanto nos custa cada uma delas.
Aqui reside um dos equívocos mais cómodos do feminismo New Age, expressão que acabei de inventar e que, modéstia à parte, descreve lindamente a criatura: chamar empoderamento a tudo o que uma mulher decide fazer. Comprar uns sapatos pode ser uma alegria, uma extravagância ou uma péssima decisão financeira. Não passa automaticamente a ato revolucionário, mesmo que sejam uns tontos de uns Louboutin e façam um barulho magnífico ao entrar na sala.
O feminismo também não exige que todas tenhamos a mesma opinião sobre maternidade, casamento, sexualidade, trabalho, pornografia, prostituição, religião ou o que seja. Quem procura uma doutrina com resposta única e castigo para as dissidentes escolheu o movimento errado. As feministas discutem entre si desde que existem! Algumas dessas discussões fizeram avançar o pensamento; outras poderiam ter sido resolvidas com um bom vinho, duas cadeiras afastadas e uma dose considerável de comunicação não violenta.
Chegamos, finalmente, ao busílis: o feminismo dá-nos uma lente para reconhecer onde o sexo e o género condicionam direitos, segurança, poder e liberdade. Depois exige que façamos alguma coisa com aquilo que vimos. Pode ser mudar uma lei, dividir justamente o trabalho em casa, educar uma criança de outra forma, enfrentar uma piada sexista ou deixar de julgar uma mulher segundo uma regra que nunca aplicaríamos a um homem.
A quinta mulher olha para as quatro e percebe que sempre beneficiou de conquistas feministas, mesmo quando recusava a palavra. Pode continuar a não se identificar como feminista, evidentemente; ninguém lhe vai confiscar o cartão de cidadão nem aparecer à porta com um formulário de adesão e uma t-shirt rosa pink com um pirete à guisa de rebeldia. Convém apenas que saiba o que está a rejeitar por nunca ter pensado no assunto de forma mais profunda e… justa.
Na próxima crónica, conheceremos algumas das rebeldes que pegaram nestas ideias e fizeram a História perder a compostura. Olympe de Gouges já está a discutir com Emma Goldman, Sojourner Truth pediu novamente a palavra e alguém trouxe mais achas para a fogueira.
Antes de saíres desta mesa, termina a frase que tantas de nós já dissemos: “Eu não sou feminista, mas acredito que uma mulher deve poder…”
Agora lê o que escreveste depois do “mas”.
É muito provável que uma das quatro senhoras esteja a sorrir para ti.
By Vera Xavier
veraxavier.com
Crónica publicada originalmente na revista SELFIE.
Fact-check e fontes editoriais
Definição de feminismo de bell hooks, em Feminism Is for Everybody (2000): Pluto Press
Discurso de Sojourner Truth na Convenção dos Direitos das Mulheres de Akron, Ohio (1851): The Sojourner Truth Project