Sabes onde nasceu a palavra feminismo? Não foi num círculo de mulheres furiosas e sexualmente frustradas, nem numa reunião secreta onde alguém decidiu acabar com os homens antes do brunch, não foi, não. Nasceu… espera, numa tese de Medicina! E nasceu, ’tadinha, doente, a sério, com tuberculose e tudo.
Passo a explicar, irmã, porque isto tem uma ironia tão bem montada que até parece escrita por uma mulher. Vamos a isso.
Em 1871, o médico francês Ferdinand Valère Faneau de la Cour publicou uma tese chamada Do Feminismo e do Infantilismo nos Tuberculosos, onde usava a palavra para descrever certas características consideradas femininas em homens doentes. Sim, o feminismo começou por ser um diagnóstico masculino. Não é maravilhoso? Um ano depois, Alexandre Dumas filho pegou no termo e usou-o, em L’Homme-Femme, para enxovalhar quem defendia a igualdade das mulheres. Leste bem: os primeiros “feministas” insultados eram homens. Ouviram, cavalheiros atuais? Podem aproximar-se e ouvir também porque a palavra não morde. Bom… depende. Vera, avança.
Em 1882, Hubertine Auclert, sufragista francesa e mulher com uma coragem que não cabia nos vestidos da época, apropriou-se publicamente do insulto e devolveu-o ao mundo como identidade política. Não pediu autorização ao médico, ao escritor, ao marido que não tinha, nem à administração central do patriarcado. Pegou na palavra doente, levantou-a da cama e pô-la a marchar. Valente!
Desde então, a palavra nunca mais se comportou, felizmente. Cresceu, discutiu consigo própria, dividiu-se em correntes, zangou-se no Natal com as outras gerações e ficou tão elástica que hoje serve para defender a liberdade das mulheres e, por vezes, para justificar disparates que fariam as sufragistas pedir um copo de água com muito açúcar… ou um brandy. A palavra feminismo é uma sombrinha enorme debaixo da qual cabem teorias sérias, contradições, divergências e uma ou outra… excêntrica — viste que soft fui? — com acesso a um microfone ou uma sala da Câmara municipal de Sintra. Faz parte.
Décadas depois, Simone de Beauvoir escreveu a frase que ainda hoje acende discussões, assim como quem atira um fósforo para uma sala cheia de gasolina: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher.” A frase, publicada em O Segundo Sexo, em 1949, não diz que escolhemos uma personagem como quem decide o vestido para um jantar. Beauvoir falava do modo como a sociedade nos ensina, desde pequenas, o que uma mulher deve ser, desejar, tolerar e calar. O corpo nasce connosco; a ideia de “mulher aceitável” já estava cá antes de chegarmos. A metamorfose começa quando percebemos que o lugar que nos ensinaram a ocupar não é uma sentença de prisão perpétua.
A primeira vaga feminista concentrou-se no voto, na educação, na propriedade e na existência legal das mulheres, uma ambição modesta, como se vê: sermos consideradas pessoas inteiras com direitos. Que loucura! Que excessivo!
Em Portugal, Carolina Beatriz Ângelo votou em 1911 porque era viúva, alfabetizada e chefe de família, aproveitando uma lei que se tinha esquecido de escrever “homens”. O legislador, quando percebeu a falha, fechou-a rapidamente em 1913, não fosse a mania pegar. Algumas mulheres portuguesas só começaram a votar sob condições em 1931; a igualdade do sufrágio chegaria apenas com a democracia e as eleições de 1975. Ontem, portanto. O que devia envergonhar mais gente do que envergonha.
A segunda vaga, sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, trouxe para o centro o corpo, a sexualidade, o trabalho, a contracepção, o divórcio e a violência dentro de casa. A partir daqui, a árvore ganhou ramos suficientes para montar uma floresta.
Escolhi quatro. Há mais, muitas mais, mas se as convidarmos a todas isto deixa de ser uma crónica e passa a congresso, com credenciação, pastas de pano e uma senhora a perguntar onde estão os certificados.
Imagina, então, que estas quatro feministas vão jantar ao mesmo restaurante.
A liberal chega primeiro e quer uma cadeira igual, o mesmo menu, o mesmo salário para pagar a conta e a mesma hipótese de gerir o restaurante, se assim tiver de ser. Não pretende deitar o edifício abaixo; quer retirar das regras tudo o que impede as mulheres de chegar aos mesmos lugares. Trabalha por reformas legais, igualdade de oportunidades e representação. É a mais fácil de apresentar à família: argumenta com elegância, sabe falar com o gerente e, quando damos por ela, já conseguiu mudar o regulamento interno sem virar uma mesa. Se, perante uma injustiça, pensas “esta lei tem de mudar”, a liberal acabou de puxar uma cadeira para ti.
A radical entra, observa a sala e pergunta quem desenhou o restaurante, porque razão os homens ocupam historicamente as mesas do poder ali no centro e as mulheres aparecem tantas vezes na cozinha, a servir, a enfeitar ou a pedir desculpa por existir. “Radical” vem de raiz; antes de se tornar um insulto de redes sociais, significava precisamente ir à origem do problema. Kate Millett explicou em Política Sexual, em 1970, que o patriarcado funciona como um sistema sustentado pela família, pela cultura, pela sexualidade e pelas instituições. Valerie Solanas levou a fúria para outra galáxia no Manifesto SCUM (um nome e acrónimo bastante elucidativos), uma mensagem feroz a pedir a eliminação dos homens. Tenho de partilhar só este naco que é estrondoso, só este: ela afirmava que o homem é uma "mulher incompleta" com um défice cromossomático que o torna emocionalmente limitado. Boom! Excessivo? Concordo. Mas a sociedade precisava de despertar, naquela altura… como agora.
A marxista ainda nem se sentou e já quer saber quem é dono do restaurante, quem cozinhou, quanto recebeu, quem lavará a toalha e porque continua a haver tanto trabalho feminino sem salário, contrato ou reforma. Para ela, não conseguimos compreender a subordinação das mulheres sem seguir o dinheiro e a divisão do trabalho. Na mesma linha, Clara Zetkin propôs, em 1910, a criação de um dia anual dedicado às mulheres trabalhadoras; o 8 de Março ficaria ligado à data depois das manifestações das mulheres russas em 1917. Portanto, antes de se transformar em perfume com desconto, flores embrulhadas em celofane e bonequinhos que ninguém pediu, o Dia Internacional da Mulher nasceu das lutas políticas e laborais. Se, quando vês uma injustiça, a tua primeira pergunta é “quem trabalha, quantas horas, quanto ganha e quem lucra?”, já sabemos quem ressoa em ti.
A interseccional é a quarta, embora, a bem do rigor, traga mais uma lente do que um partido. Antes de se sentar, ela olha à volta e pergunta quem não foi convidada, quem falta na sala. Há acesso para uma mulher com mobilidade reduzida? Quem ficou em casa porque não tem dinheiro, documentos ou quem lhe guarde os filhos? Uma mulher branca e rica encontra os mesmos obstáculos que uma mulher negra, pobre e migrante? É evidente que não. Kimberlé Crenshaw deu o nome “interseccionalidade” a este cruzamento de desigualdades em 1989, embora mulheres negras já o analisassem muito antes, como é evidente; Angela Davis, por exemplo, publicou Mulheres, Raça e Classe em 1981. Temos também a grande bell hooks, que queria mesmo que o seu nome, ou melhor, o seu pseudónimo, fosse escrito em minúsculas. Deixou-nos uma definição que devia impedir muita discussão tola e vazia: o feminismo é um movimento para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão. Os homens cabem nesta luta; o sexismo é que não tem lugar à mesa.
Então, irmã, qual destas quatro fala mais alto em ti? Eu cá desconfio de perguntas que nos obrigam a escolher uma única caixa porque podemos exigir leis iguais com a liberal, procurar a raiz dos problemas com a radical, seguir o dinheiro com a marxista e reparar em quem ficou à porta com a interseccional. Uma palavra pode orientar-nos sem nos engolir. O rótulo serve para encontrar a gaveta, mas não temos de ficar lá paradas. E é natural que o que defendes hoje seja diferente do que defendias há 2, 5, 10 anos. É natural e saudável.
Talvez não te chames feminista, tudo bem. No entanto, quando exigiste receber o mesmo que um colega, quando saíste de uma relação onde a tua voz não era respeitada, quando defendeste o direito de outra mulher escolher uma vida diferente ou quando perguntaste por que motivo o gesto de cuidar continua a cair quase sempre nas mesmas mãos, uma destas mulheres levantou-se dentro de ti. Mesmo que tu lhe tenhas dito: “Sente-se, rapariga, não vamos arranjar confusão!”
Agora, olha para o último sapo que tiveste de engolir para não incomodar ninguém. Qual das quatro se levantaria primeiro por ti? Diz o nome dela. Puxa-lhe uma cadeira e conversem. É muito provável que ela esteja dentro de ti há anos, de guardanapo no colo, farta de esperar que admitas que tens opinião, sim.
By Vera Xavier
veraxavier.com
Fact-check e fontes editoriais
Origem médica do termo, Faneau de la Cour, Du féminisme et de l’infantilisme chez les tuberculeux (1871): National Library of Medicine
Alexandre Dumas filho e apropriação posterior por Hubertine Auclert: Le Monde, síntese baseada no trabalho da historiadora Christine Bard
Carolina Beatriz Ângelo e o voto de 1911: Assembleia da República
História do Dia Internacional da Mulher e papel das manifestações russas de 1917: Nações Unidas
Definição de feminismo de bell hooks: Pluto Press