A História tem um método curioso para lidar com mulheres incómodas, que dizem cenas e têm opiniões. Que atrevimento! Começa por chamar-lhes histéricas, imorais, perigosas ou indecorosas; depois espera que morram, inaugura-lhes uma estátua e serve croquetes junto à placa. Subitamente, aquela mulher insuportável torna-se “uma figura inspiradora” e já ninguém se lembra de quem tentou calá-la. Uns fofos!

Nas duas primeiras crónicas desta série, descobrimos onde nasceu a palavra feminismo, conhecemos algumas das suas correntes e percebemos o que as une.

Ora, vamos sentar à mesa quatro mulheres que transformaram essas ideias em atos bastante inconvenientes para o patriarcado: Olympe de Gouges, Sojourner Truth, Emmeline Pankhurst e Emma Goldman. Calma, irmã, isto é uma crónica, não é o congresso anual das mulheres que deram cabo do sossego aos homens do poder. Hum, olha que boa ideia... Vera, foco!

A liberal, a radical, a marxista e a interseccional ainda discutem a conta quando chegam as convidadas. Nunca se encontraram na vida real, mas uma diferença de séculos não vai estragar-nos o jantar. A conversa é imaginada; os factos e as idiossincrasias políticas pertencem-lhes.

Olympe aparece com papéis debaixo do braço, Emmeline observa as restantes com aquele típico ar distante dos britânicos e Sojourner procura uma cadeira onde consiga finalmente falar sem ser interrompida. Emma Goldman ainda não chegou; algures pelo caminho, estará certamente a indagar quem é o dono do restaurante. Os olhos de Kimberlé Crenshaw, a nossa interseccional, brilham quando veem Sojourner aproximar-se. Finalmente, uma mulher negra senta-se àquela mesa.

“Trouxeste trabalho para o jantar?”, pergunta a liberal.

“Trouxe provas”, responde Olympe. “Durante a Revolução Francesa descobri que não era prudente confiar a memória das mulheres aos homens que escreviam as leis. Em 1789, proclamaram a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Liberdade, igualdade, fraternidade, tudo muito bonito.”

“E as mulheres? E a sororidade?”, pergunta Sojourner.

“Nas letras pequeninas. Por isso publiquei, em 1791, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Se podíamos pagar impostos, ser julgadas e subir ao cadafalso, também devíamos poder subir à tribuna.”

“Onde, por sinal, perdeste a cabeça”, observa Emmeline.

“Sim.” Ninguém sorriu com a piada na altura.

“Escrever salvou-te?”

“Não acabámos de falar da minha cabeça, mulher?”

“Então, para que serviu a luta?”

“Para os impedir de dizer que nenhuma mulher tinha reparado que estavam a erguer uma nova ordem com a velha exclusão.”

Sentiste o poder destas palavras, irmã? Quantas vezes avaliamos a coragem apenas pelo resultado imediato? Há pessoas que abrem a primeira fenda numa parede sabendo que não viverão o suficiente para a ver cair. Devemos concluir que falharam?

“Foi a declaração que te levou à guilhotina?”, pergunta a radical.

“Não diretamente. Apoiei a Revolução, mas opus-me à violência dos jacobinos, ataquei Robespierre, defendi os girondinos e critiquei a concentração do poder. O texto que precipitou a minha prisão chamava-se As Três Urnas. Propus que o povo escolhesse, através do voto, entre uma república unitária, uma república federal e uma monarquia constitucional.”

“Mas atão, irmã? Foste acusada de atacar a soberania popular porque querias que o povo escolhesse?”

“Democracia, sim, desde que ninguém votasse na opção errada.”

A radical solta uma gargalhada. “É o velho paradigma revolucionário: toda a gente defende a liberdade até aparecer alguém a exercê-la na direção errada.”

“Fui guilhotinada a 3 de novembro de 1793”, continua Olympe. “Depois escreveram que eu me tinha esquecido das virtudes próprias do meu sexo.”

“Traduz lá isso”, pede a liberal.

“Uma mulher meteu-se na política.”

“Ah, que crime gravíssimo!”

Sojourner aproxima a cadeira. “Enquanto discutiam se as mulheres podiam subir à tribuna, alguém se lembrou de perguntar de que mulheres estavam a falar?”

“Tens razão”, responde Olympe.

“Nasci escravizada em Nova Iorque, com o nome Isabella Baumfree. Trabalhei desde criança, fui espancada e vi os meus filhos serem vendidos. Quando fugi, levei uma filha comigo e mais tarde recorri aos tribunais para recuperar um filho que fora vendido ilegalmente.”

“E conseguiste?”, pergunta a liberal.

“Consegui. Uma mulher negra, anteriormente escravizada, levou um homem branco a tribunal e recuperou o filho. Depois escolhi o nome Sojourner Truth e percorri o país a falar contra a escravatura e a favor dos direitos das mulheres.”

“Não sabias ler nem escrever, pois não?”, pergunta Emmeline.

“Não. Ainda assim, sabia exatamente o que queria dizer, uma vantagem que nem todas as pessoas com três licenciaturas e um microfone conseguem adquirir.”

Caneco, como não admirar esta mulher?

“Em 1851, numa convenção pelos direitos das mulheres, ouvi homens dizerem que as mulheres eram frágeis e precisavam de ajuda para subir para carruagens. Eu tinha trabalhado tanto como qualquer homem, suportado castigos e ninguém me ajudava a subir a lado nenhum. Afinal, de que mulher falavam?”

“Da mulher branca”, responde Kimberlé.

“Da mulher branca de determinada classe social”, corrige Sojourner. “Nós nem sequer constávamos do paradigma da feminilidade. Quando diziam que as mulheres eram delicadas, não falavam de mim; quando chegou o momento de explorar o meu trabalho, vender os meus filhos ou castigar o meu corpo, ninguém duvidou de que eu era suficientemente forte.”

“O teu discurso ficou conhecido como Ain’t I a Woman?”, recorda Kimberlé.

“A versão mais famosa foi publicada doze anos depois por Frances Gage e atribuiu-me um dialeto do Sul, embora eu tivesse crescido em Nova Iorque e a minha primeira língua fosse o neerlandês.”

“Até a tua voz foi reescrita para caber na personagem que esperavam de ti?”

“Exatamente. Enquanto algumas mulheres pediam para entrar na categoria de cidadãs, nós ainda precisávamos de perguntar se éramos reconhecidas na categoria de mulheres.”

Emmeline bate com a mão na mesa. “E durante quanto tempo devemos explicar tudo isto educadamente? Em 1903, fundei com outras mulheres a União Social e Política das Mulheres. O nosso lema era ‘Ações, não palavras’. Depois de décadas de petições e promessas, as mulheres britânicas continuavam sem poder votar.”

“Então partiram montras”, observa Olympe.

“Interrompemos reuniões, desafiámos a polícia e atacámos propriedades. Muitas foram presas, fizeram greves de fome e foram alimentadas à força.”

“Não podiam ter continuado a negociar?”, pergunta a liberal.

“Durante quanto tempo? Mais dez anos? Vinte? Cinquenta? Quantas vezes deve uma mulher pedir o mesmo direito antes de admitirmos que o problema já não está na maneira como pede?”

“A destruição de propriedade pode afastar pessoas da causa”, argumenta a liberal.

“Também pode obrigá-las a olhar para aquilo que preferiam ignorar”, responde a radical.

“Ou dar ao poder o pretexto para aumentar a repressão”, acrescenta a marxista.

“Fez provavelmente as três coisas”, admite Emmeline. “Porque exigimos sempre que os oprimidos sejam irrepreensíveis na forma como contestam a opressão? Os governos pareciam ouvir melhor uma montra partida do que uma mulher a pedir o voto.”

Emma Goldman entra finalmente no restaurante. “Perdi alguma coisa?”

“A hora do jantar”, responde Emmeline.

Uma anarquista que se preze não reconhece autoridade moral a um qualquer relógio. Emma pede vinho e senta-se. “Também continuo sem perceber esse entusiasmo todo pelo voto.”

Emmeline vira-se para ela quase a cuspir fogo. “Passámos décadas a lutar por esse direito!”

“Eu quero mais do que autorização para escolher quem manda em mim.”

“Sem representação política, continuaremos sujeitas a leis que não ajudámos a criar”, intervém Olympe.

“Concordo. Só não transformemos o voto num sacramento democrático. Uma cruz num boletim não liberta, per se, uma trabalhadora explorada, uma esposa economicamente dependente ou uma mulher impedida de decidir sobre o próprio corpo. Também não acredito que as mulheres purifiquem automaticamente a política apenas por serem mulheres.”

“Ter útero não inclui uma certidão vitalícia de bom senso”, recorda Kimberlé.

“Finalmente, estamos de acordo”, diz Emma.

Olympe exige cidadania, Emmeline exige ação, Emma põe o sistema em causa e Sojourner pergunta quem continua excluída. Quatro paradigmas de libertação e contradições suficientes para arruinar qualquer tentativa de transformar o feminismo numa doutrina homogénea.

“Então, qual de nós estava certa?”, pergunta Emmeline.

“Nenhuma estava inteiramente certa”, responde Sojourner.

“Nem inteiramente errada”, acrescenta Olympe.

“Parece que ainda precisam de nós”, observa Emmeline.

“Precisam sobretudo de aprender a fazer perguntas”, corrige Sojourner.

Sem dúvida: quem beneficia ainda do nosso silêncio? Que regra cumprimos para não incomodar um homem, uma estrutura, uma norma ou uma cultura? Quantas vezes despejamos três pedidos de desculpa e um sorriso para ninguém pensar que somos difíceis? Quantos sapos já engolimos?

Não te sugiro que partas uma montra, irmã, embora Emmeline esteja a avaliar a louça do restaurante com um entusiasmo preocupante. Podes começar por corrigir quem se apropriou da tua ideia, recusar a tarefa que te atribuíram porque és “a mulher mais organizada” ou dizer em voz alta aquilo que tens preso na garganta há anos.

Escolhe astutamente o teu pequeno ato de rebeldia, desta semana. A História pode demorar a trazer os croquetes, irmã, mas a tua vida não tem de esperar pela inauguração do raio da estátua.

A História muda porque algumas de nós somos rebeldes com causa. Qual é a tua?

By Vera Xavier

veraxavier.com

Crónica publicada originalmente na revista SELFIE.

Fact-check e fontes editoriais

Olympe de Gouges, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã (1791), o panfleto As Três Urnas e a execução a 3 de novembro de 1793: Encyclopaedia Britannica

Sojourner Truth (Isabella Baumfree): infância escravizada em Nova Iorque, o neerlandês como primeira língua e o processo para recuperar o filho: The Sojourner Truth Project e Encyclopaedia Britannica

As duas versões do discurso de 1851, a de Marius Robinson (1851) e a de Frances Gage (1863), conhecida como Ain’t I a Woman?: The Sojourner Truth Project

Emmeline Pankhurst, a fundação da Women’s Social and Political Union (1903), o lema “Deeds, not words”, as greves de fome e a alimentação forçada: UK Parliament, Women and the Vote

A crítica de Emma Goldman ao voto como via de libertação, no ensaio Woman Suffrage, em Anarchism and Other Essays (1910): The Emma Goldman Papers, Universidade da Califórnia, Berkeley