Sou feminista e gosto de homens… que não tenham medo de mulheres. Gosto mesmo, irmã: gosto da conversa, da companhia, do colo e de… pronto, fico por aqui, porque há crianças na sala.

Custa-me perceber o espanto que esta combinação ainda provoca, em homens e em mulheres, como se, ao assumir-me feminista, tivesse de entregar uma declaração de desinteresse pelo sexo masculino em papel azul de 25 linhas, com assinatura reconhecida no notário e efeitos imediatos. Gosto de um homem que me desperte curiosidade e me faça sentir confortável, gosto que a conversa se estenda muito para lá do previsto, de reparar nas mãos, de ouvir uma gargalhada e querer provocá-la outra vez. Gosto daquele instante em que damos conta de que estamos a olhar-nos um pouquinho mais. E continuamos. Gosto do primeiro toque, e do segundo.

Pronto, está assumido e esclarecido? Atão vamos lá a ver se conseguimos falar de feminismo sem que ninguém venha fiscalizar os meus sentimentos, as minhas crenças ou os meus traumas, bora? Defendo que uma mulher possa decidir como quer viver, quando, onde e em que termos, e isso inclui a que adora estar apaixonada, a que vive lindamente sozinha e aquela que, neste momento, não quer um homem nem para lhe perguntar as horas. A liberdade tem de servir para todas, mesmo quando as escolhas das outras não combinam com as nossas, e a isso chama-se respeito (com R grande, fazia o favor).

É aqui que tenho de ter cuidado com o meu próprio título, porque «Sou feminista e gosto de homens» pode ser lido com um alívio que me incomoda: ah, esta é das nossas, esta é razoável, esta não é como aquelas outras, as zangadas, as amargas, as mal-amadas (que expressão tão abominável, valham-nos os deuses). Devagar, chérie, que eu ainda não acabei. A minha simpatia pelos homens não serve para humilhar outra mulher, jamais, e muito menos para me inscreverem num concurso de feministas aceitáveis, daquelas que incomodam pouco e ficam bem nas fotografias de família. A ideia é tão risível que nem me dou ao trabalho de a conceber, até porque, convenhamos, eu sou bastante desconfortável.

Há mulheres que odeiam homens (e homens que odeiam mulheres, já agora) e que têm razões para esse ódio: histórias pessoais, histórias de família, coisas que viveram ou que viram acontecer dentro de casa. Uma filha pode crescer a observar o medo da mãe muito antes de ter palavras para o explicar, pode aprender a distinguir o som de uma chave na porta e saber, só por esse som, como vai correr o resto da noite. Depois cresce, e alguém lhe diz que devia confiar mais… na vida, assim, como quem recomenda beber água do Vimeiro.

Há mulheres a quem fizeram mal e que, quando tentaram falar, encontraram homens, e mulheres também (sim, também), sempre disponíveis para proteger o filhinho, o amigo, o irmão, o pai. Outras pessoas preferiram não fazer perguntas e continuar sem saber, ou despacharam o assunto com um genérico «não são todos os homens!». Pois não, não são todos; só que, quando acontece, quase sempre é um homem, e para quem ficou sozinha no meio disto a frase «há homens bons» pode ser verdadeira e chegar numa altura em que não ajuda absolutamente nada. Pensa comigo, irmã: se já trincaste uma bolacha envenenada, a caixa seguinte deixa de ser um mimo inocente e passa a ser um teste, por mais que te jurem que as outras nove são de manteiga e cacau do bom.

Eu não conheço a vida inteira de uma mulher só porque a ouvi dizer que odeia o seu oposto complementar, nem sei quantas tentativas de confiar houve antes daquela frase, e convém lembrar-me disso antes de lhe servir as minhas boas experiências como se fossem uma correção às dela. Do mesmo modo, recuso-me a presumir que há trauma sempre que uma mulher está zangada com homens, porque há uma grande diferença entre um trauma e os momentos que simplesmente nos marcaram. Podemos olhar à nossa volta e ter razões de sobra para nos indignarmos; o busílis começa quando deixamos de nos indignar pelas razões certas.

O que me interessa, no fundo, é conseguir estar nesta conversa sem exigir que todas sintam o mesmo que eu. Posso discordar de uma generalização (acontece-me muuiiitassss vezes, confesso) e continuar a ouvir quem a fez; posso gostar de homens sem pedir a outra mulher que goste também; e posso, sobretudo, resistir à tentação néscia de lhe explicar que ainda não encontrou o homem certo. Caneco, uma mulher diz que está farta e nós vamos logo arranjar-lhe mais um, como quem oferece segunda dose de sobremesa a quem acabou de dizer que está com uma crise de vesícula?! Faça-se silêncio, e deixemos as nossas opiniões descansar um bocadinho, que também merecem.

Quero poder gostar de um homem e conversar com ele sobre aquilo em que discordamos, com espaço para a minha opinião, certa ou errada, incluindo a parte que lhe custa ouvir, e espero ter a mesma disponibilidade quando chegar a minha vez de ouvir o que me custa.

O meu feminismo acompanha-me quando estou apaixonada: senta-se comigo à mesa da tasca, vai ao cinema, e sim, também se deita na cama, mete o nariz nas decisões sobre o dinheiro, na forma como repartimos as tarefas e no respeito pelo tempo e pelo espaço de cada um. Apaixonar-me nunca tirou o meu ativismo feminista da equação, e é precisamente por ele lá estar que consigo dizer onde ficam as minhas fronteiras, os meus anseios e as minhas metas.

Por isso, sim, gosto de homens, de homens adultos, e gostava que esta frase fosse recebida com a mesma naturalidade com que digo que gosto de dormir até tarde num domingo chuvoso.

À mulher que se senta ao meu lado e me diz «eu já não os suporto» não vou perguntar quem lhe fez mal, nem tentar convencê-la a mudar de ideias. Vou pedir-lhe que se ponha à vontade e dizer-lhe que vou ouvi-la e que, agora, só ela importa; vou compreender sem julgar e sem lhe despejar logo em cima a minha opinião carregada das minhas próprias experiências; vou deixá-la desabafar, chorar, descansar, abraçar, o que lhe apetecer. Até vou oferecer-lhe um ou outro prato para partir em segurança.

Fica o desafio, irmã, para a próxima vez que uma amiga te disser «já não os suporto»: conta até dez antes de abrires a boca e, entretanto, chega a tua cadeira mais perto da dela, pede mais dois cafés, dois copos de vinho ou de vodka (pode ser por esta ordem) e guarda a tua história para outro dia.

Quando ela já tiver dito tudo, e só aí, põe a tocar o «A Gente Vai Continuar» do Jorge Palma, que diz melhor do que nós que ainda há muita estrada pela frente. Temos muito mais para viver.

By Vera Xavier

veraxavier.com

Crónica publicada originalmente na revista SELFIE.