Sou feminista, sim. E se isso te incomoda… talvez estejas mais perto do problema do que da solução.
Claro que sou feminista. Não por militância cega, nem por modas de Instagram, mas por decência.
Sou feminista porque não me esqueço que, há 30 segundos, em Teerão, em Cabul — ou em certas esquinas das nossas próprias cidades — as mulheres podiam sair à rua de saia leve e mangas curtas… e hoje não podem sequer mostrar o branco dos olhos.
Num mundo que deu tantas voltas, há cabeças que continuam a girar no sentido errado.
Sou feminista porque não aceito que a liberdade da mulher seja tratada como um dado adquirido. Ela foi conquistada a ferro, a prisão, a fome, a solidão, a humilhação pública.
Beatriz Ângelo, Simone de Beauvoir, Malala, a nossa avó e até a nossa mãe — todas fizeram o que podiam com o que tinham.
Chato é ainda ter de explicar o óbvio… em 2026.
Sou feminista porque vejo rapazes — e raparigas — a idolatrarem misóginos malcriados de microfone na mão, como se fossem gurus iluminados do que quer que seja.
Sério… quem são as mães dessas criaturas? Alguém me dá o WhatsApp delas? Tenho questões a colocar.
São meninos com feridas mal resolvidas, provavelmente criados sem colo, sem espelho, sem chão — mas com Wi-Fi.
E atenção: eu também não fui criada a algodão doce. Também tive uma infância com falhas, ausências e silêncios. Mas fiz terapia — ah, terapia, esse luxo para maluquinhos excêntricos! E sim, também tenho um podcast — só que o meu não é uma sessão de despejo emocional. É um espaço de consciência.
Ser boa pessoa é uma escolha
Não é genética, não é destino, não é karma. É uma decisão.
Uma escolha que se torna mais provável quando o córtex pré-frontal já amadureceu e deixámos de viver ao sabor da amígdala — essa parte do cérebro que adora tretas fáceis, com testosterona e teorias da conspiração à mistura.
"Ó criança, pensa lá um tiquinho, vá! Isso soa bem? Isso faz-te sentir melhor ou maior? Tens a certeza? A tua mãe ficaria orgulhosa? E a tua avó?"
Há momentos em que, com ou sem neurociência, a alma tem de berrar lá de cima.
Sou feminista com salto alto e cérebro afiado
Por isso, sim. Sou feminista com gosto, com memória e com futuro. Com amor pelos homens conscientes e uma certa comichão por aqueles que ainda acham que isto é uma guerra de sexos. Não é!
Mulher ou homem: se ainda não és feminista, algo de profundamente desalinhado há contigo. Ainda não compreendeste que somos opostos complementares e não adversários?
Ninguém é melhor. Ninguém é pior. Somos diferentes e, por isso mesmo, indispensáveis uns aos outros.
E talvez esteja aqui o verdadeiro busílis: há quem ainda confunda equidade com rivalidade. Mas quem está em paz consigo não precisa de rebaixar ninguém para se sentir inteiro.
Quem ama a sério não teme o poder do outro. Respeita-o. Admira-o.