Vamos lá, a premissa é: "O lugar das mulheres é onde elas quiserem." Mas será assim mesmo? Puxa uma cadeira porque a conversa é importante. Ouve com o coração. O lugar das mulheres é, de facto, onde elas quiserem, desde que seja uma escolha individual, livre e profundamente consciente.
Abro o Instagram e parece que entrei, por engano, claro, num portal para uma dimensão paralela — mais exactamente para a década de 50 do século passado, mas com filtro de luz quente e música de elevador. Foi assim que descobri o movimento pink pill. E foi também assim que percebi que o retrocesso, quando tem uma boa capa, consegue passar por revolução, e vende-se muitíssimo bem.
Estamos a viver um fenómeno que me perturba profundamente. Não por ser novo — não é —, mas porque regressa camuflado de sonho paradisíaco e algoritmos que o amplificam com uma eficiência que os patriarcas do século passado nunca ousariam imaginar, mas ficariam felizes. Em PNL chamamos a isto uma âncora colectiva: o algoritmo fez o trabalho do hipnotizador por ti. E de borla. Tão querido!
O teu terapeuta cobra €90 à hora para te ajudar a soltar um padrão; o TikTok instala-te um novo em três dias e ainda te faz sentir iluminada.
Chamam-lhe pink pill. Ora, se o red pill tem, pelo menos, a honestidade crua de deixar clara a agressividade que envolve este… movimento "ideológico" — os homens que o seguem odeiam as mulheres e dizem-no abertamente, o que é horrível, mas identificável —, o pink pill é outra coisa. É a sedução suave de um regresso ao passado vendido como "despertar da polaridade feminina". É a submissão mostrada como identidade genuína da mulher, a suposta "coragem revolucionária" de escolher o lar em vez do mundo. Como se o mundo não fosse também nosso. Como se as mulheres que morreram para nos dar essa escolha não estivessem a revirar-se, com violência sísmica, dentro dos seus túmulos. Peço perdão, amadas Sufragistas!
Este movimento diz às mulheres que a realização verdadeira está em servir, em depender, em construir o boneco em torno de um homem e de filhos que — e este é o ponto que o conto de fadas omite sistematicamente — um dia vão embora. Porque essa é, precisamente, a definição de uma vida bem vivida. Os filhos que ficam são, invariavelmente, aqueles a quem não foi ensinado a partir. Eu sei, é agora o pão nosso de cada dia. E porquê? Porque as mães não querem perder o único vínculo que acham que é real… Obrigada, sogras!
O Preço de Parar
Schopenhauer, que era rabugento por vocação e lúcido por talento, dizia que a primeira lei da natureza é a preservação do próprio ser. Não o disse como um conselho gentil; foi uma constatação brutal — como eu gosto e mais gente devia gostar. Qualquer criatura que abdica desta lei fundamental está, em termos práticos, a assinar a sua própria sentença. Neste caso, com um sorriso nos lábios e um avental mais do que engomado.
O que acontece depois é o que vejo repetido, vezes demais, nas mulheres que chegam até mim perdidas. Já não consigo ouvir o relato delas sem sentir aquele aperto de quem reconhece o padrão e sabe o que vem a seguir: ela para de estudar, para de questionar, para de crescer. Não por preguiça, mas porque o sistema que escolheu não comporta o seu tamanho. Em PNL diríamos que ficou presa num programa de identidade desactualizado — o software ainda está a correr; o hardware cresceu. Não é tragédia, é incompatibilidade de versões. Tragédia é não actualizares. Repara: uma mulher que continua a fazer perguntas e a evoluir vai ocupar espaço intelectual e espiritual, certo? E aí, ela começa a ser um incómodo dentro da jaula que aceitou como lar. Ela apaga-se. Não com um estrondo, mas aos poucos. Silêncio a silêncio, conversa a conversa, sacrificando as suas ambições a pouco e pouco. Até que um dia olha ao espelho e a mulher que lá está é uma desconhecida. Não porque envelheceu, mas porque estacionou.
Um dia, vem o clichê, o marido encanta-se pela assistente. Eles encantam-se com uma regularidade que me envergonha descrever, mas que seria desonesto ignorar. É isto que acontece. E porquê? Porque a assistente faz perguntas interessantes, porque a assistente tem ambição, porque a assistente ainda está a edificar-se — e há algo de magneticamente vivo em quem está em construção. Ah, e massaja o ego frágil. Ah (2), e tem as marufas no sítio onde a gravidade ainda não chegou. Ênfase no "ainda".
Esta energia ígnea foi algo que a mulher que parou de crescer perdeu, não por ser menos, mas porque deixou de se nutrir.
Nota: o marido não é o vilão desta história; é apenas o catalisador que torna visível o que já estava destruído há anos. É o momento em que a factura de décadas de não-investimento em si própria bate à porta. Podes dizer-me: "Mas Vera, as mulheres foram educadas assim". Tens razão. Mas quantas das minhas clientes também foram e decidiram rasgar o guião? São imensas. E isso é o verdadeiro empoderamento: olhar para as opções e dizer, com plena consciência, "eu quero aquele caminho". Seja ele qual for.
A Versão Premium da Transação
Vou ainda mais longe. Sabes que gosto de esticar a corda. Virginie Despentes, que escreveu a sua Teoria King Kong — por favor, lê — com a fúria de quem viveu nos dois lados da equação e não tem paciência para a hipocrisia organizada, disse o que ninguém quer ouvir: o casamento, quando assente num contrato de dependência económica e sexual, tem exactamente a mesma estrutura de um contrato prostitucional. A única diferença real entre a mulher que troca o seu corpo e a sua disponibilidade por um anel e a mulher que o faz por dinheiro vivo, é que à segunda chamamos nomes e à primeira damos uma boda, parabéns e flores.
A mala Chanel e o estatuto de "esposa de" são apenas a versão premium de uma transacção que preferimos não nomear. Fazer as perguntas certas daria demasiado trabalho.
Krishnamurti — outro que não tinha paciência para meias verdades — dizia que a liberdade não é uma conquista, é um estado de consciência. Ninguém que não se tenha examinado com honestidade pode reivindicar ter feito uma escolha verdadeira, porque o que chamamos de escolha é, na maioria das vezes, o nosso condicionamento a operar sem interferência. Em PNL chamamos a isso meta-programas — os filtros invisíveis que decidem por nós antes de nós próprios termos oportunidade de pensar. O pink pill é um meta-programa num vestido vintage com laço cor-de-rosa. Muito fotogénico. Zero nutritivo.
É por isso que a pergunta que cada mulher merece fazer-se, pelo menos de 7 em 7 anos, não é "Sou feliz?" — até porque a felicidade pode ser uma anestesia muito eficaz, convenhamos. A pergunta é mais delicada, mais incómoda, daquelas que eu uso muito nas minhas sessões.
O Medo de Ser Brilhante
Bertrand Russell, que também não era dado a romantismos — sim, gosto dos filósofos brutinhos mas sábios, já me reparaste o padrão, não foi? —, responderia com aquela secura britânica: a maioria das pessoas prefere a certeza de ser miserável à incerteza de poder ser outra coisa qualquer.
O pink pill vive exactamente desta preferência. Alimenta-se do medo de crescer, do medo de falhar, do medo de ser brilhante num mundo que sempre preferiu as mulheres encostadas ao fogão — e gratas por isso. Em linguagem de coaching: são crenças limitantes com filtro de luz quente e 200 mil seguidores. A crença em si não é nova. A embalagem, essa sim, é de 2025.
Contudo, Mulher, ainda estamos a tempo de recusar a cedência. Estamos a tempo de reclamar o espaço que nos pertence por direito de nascença e por custo de sangue, suor e lágrimas alheias. Obrigada, amadas Sufragistas! Estamos a tempo de acordar do sonambulismo colectivo que as redes sociais transformaram em trend com hashtag.
Acordar dói? Claro que dói. Desfaz ilusões que eram confortáveis e identidades que custaram tempo a construir. Gerações, até. Mas é infinitamente preferível a continuar a caminhar, sonâmbula, vazia, perdida, em direcção a um fim demasiado frequente. É tempo de destruir clichês!
A questão, irmã, não é prever o fim do conto de fadas, mas garantir que és tu quem segura a caneta. A questão, a única que verdadeiramente importa, é que a tua vida te pertença por inteiro — hoje, amanhã e sempre! Ámen…
Para a semana, vamos ao outro lado do espelho: ao red pill. Vamos falar da misoginia que aprendeu a falar a linguagem da filosofia e dos homens que têm tanto medo das mulheres despertas — tanto medo! — que precisaram de construir uma ideologia inteira só para as adormecer de volta. Bem podem tentar, fraquinhos!
Mas antes de ires: quem és tu quando não estás a reagir?
Não a mulher que o pink pill quer que sejas. Não a mulher que o red pill teme que sejas. A mulher que está, neste momento, a dirigir a tua vida — com o seu poder, a sua sombra e a sua questão de alma.
Há 9 arquétipos femininos de poder presentes em todas nós. A Rainha. A Guerreira. A Amante. A Sacerdotisa. A Alquimista. A Curadora. A Visionária. A Selvagem. A Anciã. Um deles está a conduzir — e muito provavelmente não é o que escolherias conscientemente.