Esta história começa com sexo

Irmã, esta história começa com sexo… vá, mais ou menos.

O que é ótimo, porque já chega de não contar a História das mulheres porque não interessa ao patriarcado instalado há… milénios. Vamos a ela?

O mito de Lilith: na bíblia, em Génesis 1.27 e 28, diz "Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança" (dizem as más línguas que, entretanto, o homem só conseguiu preservar a imagem — a semelhança perdeu-se no tempo… eu cá para mim acho que nem a imagem manteve); "Ele criou o homem e a mulher; abençoando-os, Deus disse: Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra." (Esta parte, do dominai, convenhamos, Deus devia ter ponderado mais.) Repara, aqui não foi dado um nome — portanto, poderia ter sido Lilith. Só seria o primeiro nome feminino a ser apagado da História. Milhares se seguiram.

Ora, mais à frente, tendo o tradutor de aramaico, ou hebreu, ou grego, ou… número 20.460 se esquecido do que tinha dito, eis que diz no versículo 2.18: "O Senhor Deus disse: Não é conveniente esteja só; vou dar-lhe uma auxiliar semelhante a ele." Ênfase na palavra auxiliar, claro. Espera, ainda não acabámos. Continuando em Génesis 2, o fabrico da mulher diz assim: "Então o Senhor Deus adormeceu profundamente o homem; e enquanto ele dormia, tirou-lhe uma das suas costelas, cujo lugar preencheu de carne. Da costela que retirara do homem, o Senhor Deus fez a mulher e conduziu-a até ao homem. Ao vê-la, o homem exclamou: Esta é realmente osso dos meus ossos, carne da minha carne; chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem." Eis o primeiro milagre de sempre: uma mulher que nasceu de um homem! Que incrível!

Ora, então, vamos continuar, mas voltando à Lilith — a mulher que desapareceu misteriosamente da história no Éden: Adão quer que Lilith fique por baixo. Lilith pergunta porquê. Foram ambos criados da mesma terra, têm a mesma origem e, tanto quanto se sabe, nenhum deles recebeu um organograma divino a explicar quem ficava por cima. Porém, Adão entende que a posição lhe pertence. Lilith entende que, para acontecer, os dois têm de querer.

Consigo imaginá-la a olhá-lo de igual para igual e a dizer:

"Por baixo, Adão? Primeiro, temos de ser os dois a querer, chérie. Segundo, tenho uma reunião com as leoas às quatro e estamos a lançar uma linha de peles que vai ser um estrondo na Mesopotâmia. Tatá!"

Ela vai-se embora… para sempre. Deduzo que a coleção de peles tenha, de facto, sido um sucesso.

Repara neste pormenor, porque é delicioso: nesta história, Lilith não é expulsa do Éden. Sai pelo próprio pé. Adão, compreensivelmente pouco encantado com a estreia mundial da autodeterminação feminina, apresenta uma reclamação à administração celestial e são enviados três anjos para a trazer de volta. Ela recusa.

Qual era exactamente o crime desta mulher? Não querer obedecer a um homem? Querer decidir sobre o próprio corpo? Ou ter saído antes de lhe explicarem, durante quarenta e cinco minutos, que a hierarquia era para o bem dela? Que familiar é esta explicação, não é?

Há qualquer coisa nesta história que atravessa os séculos e ressoa, não há? Tu dizes não, mas a conversa deixa de ser sobre o teu não e passa a ser sobre o teu tom. Tu discordas, mas o problema torna-se a tua "agressividade". Tu desejas mais, mas alguém pergunta porque não consegues simplesmente estar satisfeita com o que tens.

A mulher pode ter razão — e geralmente tem — desde que a exponha num volume baixo, com um sorriso agradável e sem amarfanhar o ego do homem. Onde achas que nasceu a arte da manipulação tão feminina?

A tua Lilith não desapareceu!

Quando uma mulher aprende que certas partes de si ameaçam o "amor" tradicional — seja lá o que isso for —, precisam de aprovação ou de pertença, de sobreviver. A nossa amígdala está sempre em alerta porque, caso não pertencêssemos, morreríamos de fome. Estou a exagerar? Olha que não. Que opções tinham as mulheres solteiras, escorraçadas ou viúvas? Prostituição, a mais velha profissão do mundo. Pobres irmãs…

Escondes a voz para não parecer autoritária? Escondes ambição para não incomodar e para não seres julgada? Guardas a raiva até ela começar a sair em pequenas farpas dirigidas a quem não tem culpa nenhuma, incluindo a senhora da operadora de telecomunicações, que também já tem problemas suficientes? Ou, ainda mais comum, quando bates com o dedo mindinho na esquina da porta e voltas todos os teus fantasmas, demónios, assombrações, encostos e outros que tais? Sabes que à mulher não é permitida expressão de raiva, pois não? Essa é a emoção única que o homem pode expressar. Sabes que agora, no mundial de futebol, a violência doméstica aumentou 30%? Sim, ainda estamos neste ponto crítico.

O que podes fazer para despertar a Lilith em ti?

Não procures uma resposta rápida que agrade o teu ego, irmã. Procura uma resposta pensada e concreta.

Talvez tenhas adormecido a mulher que quer ganhar mais do que o pai, a mãe, o marido ou as amigas. Talvez tenhas camuflado a mulher que deseja ter prazer sem o justificar com amor eterno e música de violinos. Talvez tenhas exilado a mulher que sabe que aquela relação terminou, aquele projecto perdeu o brilho ou que aquela família se habituou demasiado à sua disponibilidade. Já não é disponibilidade, é abuso.

Pensa na parte de ti que foi chamada egoísta, distante, vaidosa, que ouviu "tens a mania que és boa?", quando tentou sobreviver, ou arrogante quando reconheceu o próprio valor. Será também essa a parte que os outros começaram a considerar "difícil" no dia em que deixou de responder "sim" antes de perceber a pergunta?

Recuperar essa mulher poderosa não significa obedecer-lhe cegamente. A raiva pode proteger uma fronteira, mas também pode ferir; a ambição pode criar, mas também pode devorar; a independência pode libertar, mas também pode impedir intimidade. Consciência é conseguires escutar essas forças sem lhes entregar o controlo total.

Quando Lilith regressa à nossa vida interior, não vem pedir que destruamos o jardim. Vem perguntar quem decidiu as regras, porque aceitámos algumas sem as examinar e que preço continuamos a pagar para ficar nele.

As nossas avós e mães abriram portas à força. A nossa geração tem de perceber porque ainda entra nelas de cabeça baixa.

Na próxima vez que reprimires uma vontade, que recusares um elogio, que esconderes uma ambição ou aceitares uma posição que não te valoriza, não te condenes! Faz uma pergunta:

"Se eu acreditasse, realmente, que fui feita da mesma terra, o que faria agora?"

Depois escuta, levanta-te, endireita as costas, inspira poder e expira toda a toxicidade que tens ouvido e sentido.

Power Pose, sis!

Pode ser que as leoas já estejam à tua espera.

Vera Xavier Master Coach certificada · Robbins-Madanes Training · Certified NLP Master Practitioner (ABNLP) · Master Practitioner of Time Line Therapy® · Mestrado em Philosophy, Science and Religion, Universidade de Edimburgo

Fundadora da Academia da Nova Mulher em Lisboa, onde trabalha com mulheres na travessia entre quem foram e quem são. Investigadora da História da Mulher, mitologia feminina e espiritualidade ancestral.