Esta semana reuniram-se meia dúzia delas. Vamos chamar-lhe a Reunião da Tupperware — 2.0, porque voltaram, e vêm com cheiro a mofo, embaladas em linguagem absurdamente anacrónica. Conservadoras, dizem-se. Convém completar a etiqueta que deixaram discretamente à porta: entre elas estão deputadas e figuras ligadas ao Chega, partido de direita radical populista, integrado na família política da extrema-direita. Não estamos apenas a falar de senhoras que gostam da família, da tradição, da missa ao domingo ou de naprons em cima da TV. Estamos a falar de um projeto político autoritário e antifeminista camuflado em linguagem de família, como quem põe veneno para ratos numa caixa de bombons.

Mulheres de família, veja-se lá bem, como se as outras, as que trabalham, as que decidem, as que carregam tudo sozinhas, mesmo as casadas, não tivessem família alguma. Devemos ser "boas mães, boas tias, boas primas, melhores amigas." Acabei de citar uma delas. Sim, sim! A mesma a quem a Embaixada de Israel pagou uma viagem de propaganda pura e dura: avião, hotel, refeições, acesso e um itinerário acompanhado por representantes do Estado israelita. Não recebeu dinheiro diretamente por cada conteúdo, garante ela. Ah, bom! Então, não foi propaganda, foi apenas uma viagem totalmente financiada por um Estado em guerra, que escolheu o que os convidados viam, com quem falavam e por onde circulavam. Ainda bem que esclarecemos este pequeno detalhe. Não a vi junto dos civis palestinianos em Gaza. Espera, não estou a ser justa: vi-a nos túneis do Hamas, de mão dada com uns IDF giraços, tudo para a câmara. Também não a vi na Cisjordânia, onde colonos israelitas agridem palestinianos e ocupam território que não lhes pertence. Claro que não. Oito dias não dão para tudo, ó Vera! Tu 'tamém embirras com cada coisa!

Um Movimento Que Já Era Esperado

Bom, o dito 'movimento' é novo por cá, mas eu já esperava por ele. Tinha dito, há uns tempos, que a extrema-direita ia chegar a esta página da cartilha, mais cedo ou mais tarde: a mulher a policiar outras mulheres, de graça e com sorriso, para que ninguém — leia-se, o patriarcado — precise de gastar dinheiro a fazer o trabalho. Qual trabalho? Não notas que as mulheres estão a tornar-se demasiado independentes, logo, perigosas. As universidades estão cheias de mulheres e, como sabemos, conhecimento é poder.

O que não esperava era a velocidade. Nos Estados Unidos este tipo de movimento cresce como cogumelo — e não dos bons — há anos. Por cá, como sempre, a moda demora a chegar mas o retrocesso não perde tempo algum.

O Que Diz a Ciência

Vamos, então, à parte que estas… senhoras costumam evitar: a ciência. Há estudos, não um, vários e sérios, que relacionam capacidade cognitiva com atitudes ideológicas da direita mais 'conservadora'. O mais robusto é uma meta-análise de Onraet, Van Hiel, Dhont, Hodson, Schittekatte e De Pauw, publicada em 2015 no European Journal of Personality, que reuniu 67 estudos e mais de 84 mil participantes. Encontrou uma correlação negativa, modesta mas consistente, entre capacidade cognitiva e atitudes ideológicas da direita conservadora, sendo a associação bastante mais forte quando entravam em cena o autoritarismo e o etnocentrismo.

Modesta, repito, porque a honestidade também é irreverente: não significa "conservador, logo burro". É uma tendência estatística, não um destino individual. Só que aparece vezes suficientes para deixar de poder ser despachada como coincidência. Curiosamente, a associação é bastante menor no conservadorismo genérico do que no autoritarismo. Ou seja, o problema não parece ser alguém gostar da família, da tradição ou até de toalhinhas de renda. O problema começa quando deixa de tolerar a complexidade, a diferença e a liberdade dos outros.

"O problema não parece ser alguém gostar da família, da tradição ou até de toalhinhas de renda. O problema começa quando deixa de tolerar a complexidade, a diferença e a liberdade dos outros."

Há mais uma peça neste puzzle, talvez ainda mais incómoda. Uma meta-análise publicada em 2022 reuniu 89 estudos, com mais de 201 mil participantes, e voltou a encontrar uma associação negativa pequena, mas robusta, entre inteligência e religiosidade. Em 192 formas estatisticamente razoáveis de analisar os dados, nenhuma produziu uma associação positiva significativa. Outra investigação, publicada em 2026, reforçou que a relação é mais pronunciada quando se mede inteligência geral e quando estão em causa crenças religiosas, não apenas práticas, rituais ou participação numa comunidade.

Também entre países têm sido encontradas associações negativas entre religiosidade e desempenho cognitivo médio, embora aqui pesem igualmente a pobreza, a educação, a qualidade de vida, a História e o acesso ao conhecimento. No Brasil, onde o fundamentalismo religioso tem uma presença massiva na política, a relação torna-se, por vezes, obscena.

Não é uma demonstração científica, evidentemente. É apenas difícil não reparar no elefante dentro da igreja. É ver as publicações no IG e os comentários e são poucos que não têm uma referência religiosa.

E a explicação proposta pela ciência não é "quem acredita em Deus é burro", claro que não. Isso seria preguiça intelectual e, além disso, eu própria tenho uma profunda vida espiritual… mas não religiosa. Uma das hipóteses é que a religião pode oferecer explicações prontas, sentido, segurança e uma sensação de controlo/conforto perante a incerteza, reduzindo a necessidade de algumas pessoas investigarem, questionarem e suportarem a complexidade. Outra aponta para a menor tendência para contrariar as crenças do grupo. A fé pode abrir uma investigação interior extraordinária, mas também pode encerrá-la antes de ela começar. Pensar, questionar pode abrir janelas que dão muito trabalho a lidar. Assumir responsabilidades dói. Construir um planos de vida não é para todos.

Repito o alerta: correlação não é causalidade nem destino, mas quando uma tendência atravessa dezenas de estudos, milhares de pessoas, diferentes países e diferentes formas de medição, talvez mereça algo mais profundo do que um "é coincidência" ou "Deus é que sabe".

O Que Interessa Mesmo

Dito isto — e era aqui que eu queria mesmo chegar! É verdade. — o que interessa não é humilhar quem pensa de forma diferente, jamais farei isso. Sou demasiado fã da Democracia e da Liberdade. É acordar quem está calado. São muitas/os. Porque convenhamos: quantas vezes vimos estas ondas e ficámos caladas, à espera que passe, como a moda das calças à boca de sino? Krishnamurti dizia que não é sinal de saúde estar bem adaptado a uma sociedade doente — e uma sociedade que pede às mulheres que devolvam a chave da própria vida, isso é sociedade doente, por muito que venha camuflada de 'Mulheres, o nosso lugar é na cozinha e é lá que seremos felizes! Tenho a certeza do que vos digo. Acreditem em mim!' Porquê?

Uma delas é deputada, outra viaja sem consentimento do marido, todas têm conta bancária, todas podem ter uma casa em seu nome! Graças a quem?! Às mulheres valentes que lutaram tanto para conquistar estes direitos! Essas sim, são Mulheres admiráveis e inspiradoras. Isto chama-se demagogia e hipocrisia! Vera, calma, respira. Isso… em 4, 6, 8… isso. Repete.

Sócrates já sabia: a vida não examinada não vale a pena ser vivida — e uma opinião que nunca foi posta à prova, muito menos. Se ele tinha razão, quantas destas senhoras alguma vez se sentaram a examinar a própria vida antes de decidir vendê-la às outras como modelo?

Chegou a Vossa Vez de Trabalhar

Mulheres e homens de bem, chegou a vossa vez de trabalhar — porque sim, dá trabalho, e quem disse que a liberdade vinha de borla? Sabemos como isto funciona: as carroças vazias fazem sempre mais barulho. Se não se quiserem expor em vídeo, escrevam. Um comentário do tipo "que atrasadas" não muda nada, não convence ninguém, só serve para descarregar a raiva e a consciência, e voltar ao scroll. Não basta gostar do post certo. É preciso argumentos, é preciso paciência, é preciso repetir as coisas óbvias porque, ao que parece, ainda não são óbvias para todos. E se não o fizermos nós, quem o vai fazer? As próprias senhoras da Tupperware?

Porque é bom lembrar a estas senhoras que podem, sim, ter as opiniões que quiserem — viva a liberdade, a sério, sem ironia. Juro, juro, vou morrer assim, como se diz em Maputo. O que não podem é vestir essa opinião de "é o melhor para todas nós", nós quem, cara pálida?

Os números da violência doméstica não mentem, e uma parte significativa dessa violência prospera exatamente onde a mulher não tem autonomia emocional nem financeira para sair. Defender que a autonomia é dispensável não é conservadorismo, é fechar a porta a quem ainda está lá dentro — e perguntar-lhe depois porque não sai. E cá vai a pergunta à bruta: alguma destas senhoras já se imaginou, à séria, mesmo, mesmo à séria, ser subserviente a um homem violento, sem uma porta de saída, porque a lei que abraçam não lhe permite o divórcio? É isso que está em cima da mesa quando se defende a cartilha até ao fim — a cartilha de um livro que ninguém sabe ao certo quem escreveu, mas que decidiram usar para lhes fechar a porta nas ventas sofridas. Convém pensar nisto antes da próxima reunião da Tupperware.

O Convite

O meu convite a estas senhoras é simples e não custa nada, eu até pago: metam-se num avião e fiquem uns tempos no Afeganistão. Depois façam uma escala mais longa no Sudão do Sul. Voltem e digam-me se ainda acham que a liberdade é um exagero ocidental. Cá vos espero… ou podem gostar tanto que ficam lá. Já nada me espanta.

No fundo, custa-me muito ver criaturas - estas carroças vazias - com sorte que as avós delas não tiveram, a desdenhar do bem mais precioso que têm nas mãos — a Liberdade.

Rumi dizia para não nos sentarmos à porta a chorar a chave perdida quando a porta está destrancada.

Às das nossas antepassadas custou sangue, lágrimas, solidão e exclusão a destrancá-las. O mínimo que lhes devemos é não voltar a fechá-las, nunca mais!

A liberdade não se explica a quem nunca a perdeu. Explica-se a quem a está a devolver de bandeja a quem nos tirou. Reitero o convite: Cabul tem voos diretos. Vejam lá se voltam com a mesma certeza.

"A liberdade não se explica a quem nunca a perdeu. Explica-se a quem a está a devolver de bandeja a quem nos tirou."

Mas, irmã, o meu propósito com este texto não é apenas sobre elas, estas carroças vazias. É sobre ti, que leste isto até ao fim e sabes exatamente de que lado da porta queres ficar. Falta só dizê-lo em voz alta. Por favor, não fiques mais em silêncio!

"Lembra-te. Nós Somos as Mulheres que as nossas Avós gostariam de ter sido!"

Vera Xavier Master Coach certificada · Robbins-Madanes Training · Certified NLP Master Practitioner (ABNLP) · Master Practitioner of Time Line Therapy® · Mestrado em Ciência e Religião, Universidade de Edimburgo

Fundadora da Academia da Nova Mulher em Lisboa, onde trabalha com mulheres na travessia entre quem foram e quem são. Com mais de 20 anos de trabalho directo em coaching transformacional e investigação da história feminina.