A danada da lealdade.
Há momentos em que a vida nos entrega exactamente aquilo por que trabalhámos e, antes de abrirmos o champanhe, a culpa já abriu um inquérito impiedoso com 123 perguntas.
Fomos promovidas. O negócio cresceu. Surgiu uma oportunidade extraordinária. Apaixonámo-nos por um projecto que pode mudar a nossa vida. Porém, em vez de celebrarmos, começamos a negociar contra nós: "Mas quem somos nós para querer mais?", "Será que merecemos ter mais do que a nossa família?", "Se tiver sucesso, vão afastar-se de mim?"
De repente, comunicamos uma conquista como quem anuncia uma fuga de água no prédio: pedimos desculpa pelo incómodo, garantimos que não foi nada de especial e prometemos não voltar a prosperar sem avisar. Quem nunca?
É aqui que entra a danada da lealdade.
A Lealdade Invisível
O conceito de "lealdade invisível" nasceu na terapia familiar contextual de Ivan Boszormenyi-Nagy e Geraldine Spark. Este conceito fala dos compromissos silenciosos que mantemos com a família, com as respectivas expectativas e com aquilo que entendemos ser justo devolver a quem veio antes de nós. Não é uma maldição da linhagem, nem uma herança gravada no ADN, são maneiras de amar, de pertencer e pagar dívidas emocionais que aprendemos tão cedo que acabamos por confundi-las com a nossa identidade.
A família pode ser raiz, colo e abrigo, mas também pode funcionar como uma âncora. A âncora é muito útil quando existe uma tempestade; o problema começa quando queremos navegar e alguém insiste que segurança é nunca sair desse porto de abrigo/controlo.
1. A Lealdade ao Sacrifício das Nossas Mulheres
Vimos mães, avós e tias abdicarem em prol da família. Algumas desistiram de estudar, de trabalhar, de amar melhor ou simplesmente de ter uma tarde que não estivesse ao serviço de alguém. Disseram-nos que eram mulheres extraordinárias porque aguentaram tudo. Foram felizes? Tenho sérias dúvidas.
Agora repara, quando chega a nossa vez de escolher diferente, a culpa pergunta se não estaremos a… desonrá-las. Se elas tiveram tão pouco, quem somos nós para querer mais? Para ousar querer mais, como se elas não tivessem querido ousar mais! Eis o paradoxo! Se viveram cansadas, teremos o direito de descansar? Se ficaram onde não eram felizes, não será egoísmo nosso sair deste lugar de sofrimento a que chamamos "normal"?
Esta é a primeira alavanca, irmã: honrar não é imitar! Podemos agradecer o caminho que abriram sem ter de afrontar as pedras em que tropeçaram. Aliás, se uma mulher se sacrificou para que a seguinte tivesse escolha, usar essa escolha talvez seja a forma mais adulta de lhe agradecer, certo?
As nossas avós e mães abriram portas à força, com muitas lágrimas, com muita dor reprimida! Por isso mesmo, a nossa geração tem de perceber porque ainda entra no raio das portas de cabeça baixa! Esta postura deixa as nossas ancestrais orgulhosas?
2. A Lealdade ao Lugar que Ocupamos na Família
Todas as famílias distribuem papéis, mesmo sem reunião ou acta. Há a responsável, a rebelde, a que precisa de ajuda… até ao fim, a que mantém a paz, a que nunca dá problemas. Quando mudamos, o sistema inteiro sente o chão mexer. O sistema detesta mudanças.
Se somos a mulher sempre disponível, começar a dizer "não" vai desiludir alguém. Se somos a que nunca teve dinheiro, prosperar altera conversas, expectativas e pedidos. Se crescemos mais do que o grupo considera admissível, podemos recear a frase que tantas de nós conhecemos: "Olha, agora tens a mania que és boa."
O medo de rejeição não nasceu necessariamente da nossa imaginação. As mulheres podem ser socialmente penalizadas quando mostram ambição ou promovem o próprio trabalho. Mas antecipar o abandono também nos leva a uma proeza curiosa: isolamo-nos antes que alguém tenha a oportunidade de o fazer. É por isto que tantas mulheres trabalham em segredo. Têm um medo terrível de dizer alto que têm sucesso ou até que pensam ter sucesso. A inveja familiar é tremenda.
A segunda alavanca é deixarmos de pagar antecipadamente por uma rejeição que talvez nunca aconteça. Quem nos ama pode precisar de tempo para se adaptar, mas não precisa que amputemos o nosso crescimento. E quem só nos aceita pobres e humildes não está a proteger o vínculo; está a proteger a sua própria posição na dinâmica grupal.
Podemos amar a família sem lhe entregar a direcção da nossa vida.
3. A Lealdade à Crença de que Não Podemos Ter Tudo
Será que conseguimos ter uma família, uma carreira bem-sucedida, amor, prazer, dinheiro e, num dia particularmente auspicioso, uma planta de manjericão que sobreviva? (Levei anos a ter uma que conseguisse manter viva.)
Talvez não consigamos ter tudo ao mesmo tempo, com a mesma intensidade e sem apoio. Isso chama-se realidade e não incapacidade feminina, mulher! O busílis começa quando transformamos uma questão de estrutura, tempo e negociação numa sentença sobre aquilo que merecemos.
Vimos as nossas mulheres abdicar de algo — demasiadas vezes e quase sempre em silêncio, pensa um pouco e verás que é verdade — portanto, aprendemos que toda a conquista feminina exige uma oferenda ou uma troca: a carreira ou a família; o amor ou a liberdade; o sucesso ou a paz. É, e sempre foi, penoso sentir que temos de escolher entre a família e a carreira, porque qualquer decisão parece obrigar-nos a sacrificar uma parte de nós ou a deixar por viver uma área vital da nossa vida.
A juntar à festa, há as questões sociais, porque não podemos chamar "crenças limitadoras" à falta, por exemplo, de creches, à desigualdade salarial — sim, ainda! —, na divisão dos cuidados ou a um companheiro que não assume metade da vida comum. Há obstáculos que não saem das nossas monas lindas com afirmações diante do espelho; saem com apoio, limites, políticas e uma conversa bastante concreta e adulta à mesa da cozinha.
A terceira alavanca é substituirmos a pergunta "será que consigo ter tudo?" por perguntas mais honestas como: "O que significa tudo para nós?", "O que queremos nesta fase de vida?", "O que é prioritário agora?" e "Que apoio, negociação ou escolha tornaria isso possível?"
Não precisamos de ser super-mulheres, até porque elas não são reais, caneco! Essa personagem fictícia faz tudo, resolve tudo e, provavelmente, ainda cose a própria capa às três da manhã sem óculos de ver ao pé, claro. A Wonder-Woman, aka WW, é mais uma falácia, uma armadilha, tal como é o Super-Homem, diga-se de passagem.
Quem Está a Controlar as Nossas Decisões?
Escolhamos um sonho que temos adiado e perguntemos: se avançarmos, a quem sentimos que estaremos a trair? Que relação receamos perder? Que mulher da família acreditamos que ficará para trás?
Depois façamos uma pergunta menos confortável:
Quanto nos custa continuar leais a esse medo?
Nós somos as mulheres que as nossas avós gostariam de ter sido. Mas essa frase só ganha corpo quando fazemos aquilo que talvez tenha sido impossível para elas: escolher.
Portanto, irmã, quando a culpa voltar a perguntar "quem somos nós para querer mais?", talvez esteja na altura de responder:
Agora, vamos abrir o champanhe, porque já percebemos que somos muito mais corajosas, criativas e inteligentes do que imaginávamos!