Antes de Deus ter barba e ser rabugento, teve… ancas e maminhas.
Antes do velhote rabugento de túnica branca, sentado numa nuvem a apontar o dedo e a distribuir culpa (já falámos dela, da culpa, lembras-te?), era Ela. Anafadinha, fértil, de ventre generoso e seios fartos, esculpida em pedra há mais de vinte e cinco mil anos por mãos que ainda não sonhavam escrever, mas já sabiam adorar. Hoje chamamos-lhe Vénus de Willendorf e arrumamo-la numa vitrine de museu, com aquele à-vontade de quem cataloga mais um item sagrado. Só que quem a talhou não estava a fazer arte. Estava a fazer uma oração e a oração tinha corpo de mulher.
Achas estranho? Claro que achas, nunca nos falaram sobre isto. Porque será? Patriarcado. Quem? Senta-te, vamos ter esta conversa tão interessante e open minded.
O corpo era o templo e a religião
Porque no princípio — o princípio a sério, o dos primórdios, não o do Génesis — o divino era feminino. E era-o por uma razão desarmante de tão óbvia: a mulher fazia aquilo que mais se parecia com um milagre. Sangrava sem morrer, ao ritmo da Lua. Inchava e, de dentro dela, saía vida. Alimentava depois essa vida do próprio seio. Repara, para um ser humano que olhava a natureza e via nela puro mistério, o corpo da mulher era mágico. Um símbolo vivo dos ciclos da terra, da morte e do renascimento, das marés e das sementes. O corpo feminino era, ao mesmo tempo, o templo e a religião. Eram indissociáveis.
Por isso lhe deram mil nomes, e todos eram Ela. Inanna na Suméria. Ísis no Egipto. Astarte na Fenícia. Cibele na Anatólia, com os seus leões. A Grande Mãe, adorada de gruta em gruta, de vale em vale, muito antes de qualquer dos vários profetas virem dizer às pessoas o que comer à sexta-feira.
Há até quem defenda — e aqui entramos em terreno mais escorregadio, aviso já — que a velha Europa, antes das grandes invasões guerreiras, viveu milénios de culturas centradas na Deusa, que era, adivinha? Mais pacíficas, mais igualitárias. Surpresa!
É a tese da arqueóloga Marija Gimbutas, contestada por muitos colegas e adorada por outros tantos. Não ta vendo como facto assente. Vendo-ta como hipótese. E se tivéssemos passado mais tempo a venerar quem dá a vida do que a condecorar quem a tira? Hã?
E se?
A Deusa que Deus teve ao lado
Repara nesta, que é deliciosa: até o Deus da Bíblia, o Javé de barbas, parece ter tido durante séculos uma companheira. Chamava-se Asherah. Não sabias? Pois, quem é amiga, quem é?
Depois apagaram-na. Como se apagou sempre a pegada feminina! Vera respira!
Onde é que eu ia? Ah, sim: no apagar. Porque foi isso, irmãs, que aconteceu. Apagaram-Na. E, com Ela, apagaram a santidade do corpo que a representava.
Do altar sagrado à vergonha
Vê esta passagem: o que era um altar sagrado passou a ser obscenidade e tentação. O que era mistério passou a ser vergonha. O ventre que era portal — e é! — tornou-se o lugar do pecado original, a culpa "fundadora", cortesia da Eva, aquela querida que teve o desplante de querer conhecimento (que ousadia!). E o sangue que marcava o ritmo sagrado da vida foi rebaixado a "impureza": abre o Levítico e lá está a mulher menstruada declarada imunda, e imundo tudo aquilo em que toca. Sim, leste bem. Às vezes abro a bíblia ao calhas — em particular o velho testamento, claro — para me irritar. No novo divirto-me a detectar todas as incongruências. É verdade.
Vera, volta! Então, o mesmo sangue com que a natureza cria gente foi decretado nojento por um comité de senhores que nunca sangraram na vidinha.
E a Maria Madalena? A Discípula amada, a primeira testemunha da ressurreição segundo os próprios evangelhos canónicos e apócrifos. Foi promovida a prostituta por um Papa — Gre… gre… vá, Vera, tu consegues escrever o nome! Gre……gório, lá para o ano de 591 — que pegou em três mulheres diferentes, fez delas uma só e carimbou "pecadora". Séculos depois, a Igreja lá reconheceu, baixinho, que afinal se tinha "enganado". Uma gralha de mil e quatrocentos anos. Acontece a qualquer um, certo? A qualquer um que tenha vagina. Too much?
Vês o padrão? A mulher poderosa passa a pecadora. O corpo sagrado passa a profano. A voz passa a silêncio (Paulo que o diga, o mesmo que mandou calar as mulheres na igreja — já o semi-insultei noutra crónica).
Um corpo que pergunta se pode
Nada disto foi acidental. Foi tudo bem arquitetado, que não haja qualquer dúvida. Um corpo que se sabe ser sagrado não obedece à ignorância, certo? Certo. Mas um corpo que se sente sujo, esse esconde-se, pede desculpa por existir, autodestrói-se. Tapa-se até à alma. Pergunta se pode fazer xixi.
E um corpo que pergunta se pode, é um corpo que se governa a partir de fora — que era, no fundo, todo o objectivo deste arranjinho.
Milénios depois, aqui estamos nós, filhas dessa longa campanha, a sentir vergonha do que devia ser reverência. Não a nós, mulheres, atenção! Mas a uma energia feminina oposta complementar a Deus. Falo de equilíbrio; de justiça; de sensatez até.
Devolver o que herdaste
E aqui, se me dás licença, subo o tom… coisa que nunca acontece neste espaço. (contém ironia)
'Atão, mas eu tenho cara — ou TU! — de quem precisa de autorização ou sequer da opinião de alguém para escolher com quem vou dormir? Tenho? Tenho cara de quem precisa de conselhos acerca da minha vocação de ser mãe ou não? De vestir calças ou um vestido curto?
E não, não é convite à anarquia sem causa, nem a andar por aí a escandalizar velhinhas por desporto. É outra coisa. É devolver ao corpo o estatuto que tinha antes de alguém, com muito interesse no assunto — mais ironia —, decidir que a carne feminina era propriedade masculina.
Porque — e é este o busílis — a vergonha do corpo não nasceu contigo. Foi-te entregue à nascença. Herdaste-a, tal como herdaste a culpa, embrulhadinha com laço pink xaram, por quem também recebeu a mesmíssima encomenda — a tua bisa, avó, mãe. M A S, mulher! O que é herdado pode ser devolvido. Podes recusar a encomenda! YES. Como? Com trabalho pessoal.
E se, Irmã, a vergonha que sentes não for sequer tua? E se aquilo a que chamas "recato, timidez, insegurança, tristeza, medo do abandono" for só o eco de um sermão de há 2000 mil anos? E se o teu corpo — este, com estas marcas, esta história, esta idade — não tiver rigorosamente nada de que se envergonhar e tudo por que ser honrado? Cada tua história, cada cicatriz, cada trambolhão, cada lágrima… são tuas! Honra-as.
E eis que me meti novamente o Rossio na rua da Betesga… Típico, Vera Xavier!
O regresso da Deusa
É por aqui que ando embrenhada para um próximo REALmente: "Antes de Deus homem… havia a Deusa." Não para trocar um patriarca barbudo por uma matriarca de pedra (trocar de prisão não é liberdade), mas para lembrar que houve um tempo em que o corpo e os mistérios do feminino não eram problema a resolver. Simplesmente existiu. E o que existiu uma vez pode voltar a existir. Primeiro dentro de cada uma de nós.
Proponho uma experiência para a semana, e esta dá trabalho: da próxima vez que passares à frente do espelho — sim, tu — não corrijas a barriga, não procures o defeito do costume, não faças a careta automática. Pára um segundo. Olha para esse corpo como quem olha para uma Vénus de vinte e cinco mil anos — a Vénus, não tu! Olha-te como um templo sagrado. Um milagre que nunca precisou da autorização de ninguém para existir e… jamais precisarás!
Levei muito tempo para chegar aqui. A escrever isto sem ter medo da crítica. Se calhar é esse o verdadeiro regresso da Deusa: não vem numa nuvem nem num trovão, vem no dia em que uma mulher olha o próprio corpo e, em vez de vergonha, sente reverência.
Fica, então, a pergunta, e responde com honestidade:
De que parte tua ainda sentes vergonha? O que precisas de fazer para sentires orgulho dela? Que passos vais dar nesse sentido?
Afinal eram várias perguntas.
Boa meditação, irmã.