Manifesto da Dúvida — Vera Xavier
Manifesto

A Dúvida

Não vim consolar-te. Vim incomodar-te, com respeito e com argumento.

A indústria do desenvolvimento pessoal anda a vender paz de espírito ao balcão. Frases bordadas em almofadas, "confia no processo", "a abundância está a caminho, é só pedir". Ora, ninguém te deve nada. E eu desconfio de qualquer verdade que dê para bordar numa almofada.

A dúvida nada tem de insegurança: é a ferramenta mais honesta que uma mulher tem para se pensar de raiz. Duvidar é o princípio de pensar pela própria cabeça.

Duvida de quem te manda "amar-te primeiro" sem te ensinar a conhecer-te. Duvida de quem te promete abundância e te passa a fatura a prestações. Duvida do guião que recebeste à nascença: não sejas demasiado, não sejas difícil, sê forte mas não assustes. Duvida de mim, também. Sobretudo de mim.

Mas duvida com inteligência. Com pensamento crítico que corta, não com o cinismo preguiçoso de quem só quer ter razão. Questionar sem argumentar é birra. Questionar com método é soberania.

Não te vou dizer o que pensar.
Vou ensinar-te a interrogar tudo o que te disseram que eras.

E quando tirares de cima tudo o que nunca foi teu, o que fica tem nome.
Chama-se soberania. E não se pede: toma-se.

Vera Xavier
Academia da Nova Mulher